Datas que marcam

Maria Manuela Cruzeiro

Creio na pureza do terrestre

Creio no projecto racional, limpo e poético…

Sophia de Mello Breyner


Vivemos um período carregado de efemérides de grande carga simbólica, iniciado com o 17 de Abril de 1969, continuado e ampliado com o 25 de Abril de 1974, e culminando no 1º de Maio de 1975. Vivemos? Ou deixamos que nos vivam e apenas nos toquem ao de leve, e se diluam na espuma dos dias? Teimando em remar contra a corrente, e contrariando até a recomendação de alguns notáveis, cujo nome está para sempre associado a tais datas (Mário Soares, Manuel Alegre, Alberto Martins…) de que “os tempos são escassamente propícios à jubilação colectiva”, eu insisto que nunca é de mais celebrar o júbilo e a felicidade colectiva que então vivemos, antes de mais como lição que demos a nós próprios e ao mundo. 

Não é certamente uma lição de história, sabendo nós que, se alguma lição há a tirar da história, é que são inúteis as lições que ela nos dá. Mas existe algo que permanece a montante e a jusante da própria história, e que, de alguma forma, a excede: a memória. Não uma memória passadista ou nostálgica, e muito menos comemorativa. Antes uma memória que, não deixando de ser próxima e calorosa, ou justamente porque o é, salta o tempo frio do calendário e permite, em torno de datas célebres como estas, recriar uma história íntima e pessoal.
O 17 de Abril de 1969 traz-me a Coimbra da juventude, espaço e tempo de todas as iniciações e aprendizagens. Cidade fulgurosa e limpa. A Coimbra da excitação, da audácia, do gosto do risco e da aventura a selar a amizade. A Coimbra já da angústia, mas ainda festiva. Afinal como nos recorda Jorge Seabra: “éramos jovens e na juventude os pequenos negócios, as pequenas concessões, as pequenas misérias, não conseguem inquinar a alma lisa, isenta de cicatrizes”.
O 25 de Abril de 1974 traz-me a imensa surpresa, a quase incredulidade: Afinal éramos tantos a sonhar o mesmo sonho? Que caminhos secretos percorreu para nos aparecer á luz do dia com tal força e limpidez, que tornou quase inofensivos os seus temidos silenciadores?  
O 1º de Maio foi confirmação e projecto. Ponto de chegada de esperanças incendiadas, mas também bandeira de luta, clamor de vozes e cadeia de vontades, a caminho da “cidade sem muros nem ameias” do saudoso Zeca.
17 de Abril de 69…25 de Abril de 74…1º de Maio de 75…um fio de puro azul sobre os escombros, um rasto sobre o mar, uma seta apontada ao futuro!

Mas hoje, esse futuro já presente, traz-me inquietação, perplexidade e muitas perguntas. Por distantes e já historiadas que sejam tantas lutas, e anacrónicos que pareçam os seus pequenos e grandes heróis, não será possível vislumbrar uma qualquer obscura utilidade nessa pequena epopeia? Não haverá outro sentido para a história, que não seja o da impotência, da amnésia e da resignação? Porquê que a realidade tem que ser suportada e não mudada?  O passado arquivado e não recriado? O futuro aceite em vez de imaginado?
Não procurem na história, porque ela chega sempre tarde para dar sentido à vida dos homens. Só a pode recapitular. Procurem nesse dom misterioso do ser humano de, em determinados momentos excepcionais, se antecipar à própria história, e a vergar ao peso do sonho e da utopia. Os que em Abril de 69, ou num outro apenas cinco anos mais tarde, e num já longínquo 1º de Maio, experimentaram maravilhados e incrédulos esse imenso poder, e estiveram à altura desse momento único das suas vidas, se não sucumbiram à terrível arma do branqueamento ou da amnésia, selaram um compromisso que Derrida chama “dever de memória” e J. Duvignaud “ética da recordação”.

Dever e ética, as duas margens do rio que ligam essas datas ao presente. Um frágil e estreito rio que corre paralelo ao grande caudal do compromisso, da indignidade e do cinismo. Os que escolheram o pequeno rio, e não as ondas alterosas onde se equilibram os surfistas da conjuntura presente, sem se arvorarem em santos ou heróis, são apenas pessoas com um convicto sentido da solidariedade activa e necessária, da difícil e sempre inacabada exigência da cidadania, afinal da própria vida. E se de algo se orgulham, é de, no encontro que marcaram com a história, terem estado do lado certo.
Partilham, por isso, muitas memórias, que não hipotecam nem manipulam de acordo com tempos e modos, em que se não reconhecem. Mas partilham também uma dificuldade: a de viver, ou tentar viver, de maneira a fazer do mundo um lugar menos escandaloso. Um deles, Marcelo Ribeiro, escreveu: “Ainda não estamos cansados da guerra iniciada há quarenta anos, em nome de uma indignação, e que nos permite ainda hoje olharmos uns para os outros sem corar. E com alegria!”
É esta, para mim, a lição destas datas que marcaram o tempo em que, como nos recorda José Cardoso Pires “lavrámos duas ou três linhas cardiais  que não vai ser fácil apagar tão cedo” . Por muito que o queiram!