Documento(s) do mês | julho-agosto 2026 | Um verão para ler a Revolução: entre livros, documentos e História

Há livros que encontram no verão o tempo ideal para serem descobertos. Entre as recentes publicações dedicadas à Revolução de 25 de Abril de 1974, destacamos duas obras que convidam a revisitar a Revolução Portuguesa a partir de novos enfoques historiográficos.

O povo é quem mais ordena, de Victor Pereira, apresenta uma nova abordagem aos múltiplos protagonistas e dinâmicas do 25 de Abril, ao apresentar uma síntese sobre a Revolução Portuguesa, aproximando temas, atores e contextos que raramente são examinados de forma articulada. Publicado pela primeira vez em francês, em 2023, a obra analisa o processo revolucionário português para além dos seus principais acontecimentos, privilegiando as dinâmicas, os protagonistas e os debates que moldaram a sociedade entre 1974 e 1975.

O recente lançamento de Não pode haver neutros! O General Vasco Gonçalves na Revolução Portuguesa (1974–1975), de António Amaral, convida a revisitar uma das personalidades mais centrais e controversas da Revolução de Abril. Militar do MFA e primeiro-ministro entre julho de 1974 e setembro de 1975, Vasco Gonçalves liderou quatro dos seis Governos Provisórios, tornando-se protagonista de um processo político que continua a suscitar interpretações e debates.

Em diálogo com estas leituras, a rubrica Documento(s) do Mês de julho-agosto recupera uma seleção de documentos do Arquivo Vasco Gonçalves, preservado no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, reveladores do apoio que o antigo primeiro-ministro suscitava durante após o período em que liderou quatro dos seis Governos Provisórios (1974-1975). O mesmo fundo documental conserva também cartas de sentido oposto, lembrando que Vasco Gonçalves foi, desde cedo, uma figura simultaneamente admirada e contestada.

Desse modo, destacamos um excerto de carta de repúdio a Vasco Gonçalves com data de 15/07/1975; dois telegramas de apoio ao então Primeiro-Ministro do IV Governo Provisório, ambos com data de 18/07/1975; e carta-postal dirigida a Vasco Gonçalves, já depois do seu afastamento do V Governo Provisório, datada de 09/12/1975

Associamos também a esta seleção duas fotografias pertencentes ao Arquivo Fotográfico de Gerald Gigon. Na primeira, no meio de uma multidão que comemora o 1º de maio de 1975, é exibido um retrato de Vasco Gonçalves. Na segunda imagem, surge o célebre cartaz da autoria de João Abel Manta, Povo-Vasco-MFA.

A cronologia O Pulsar da Revolução ajuda a contextualizar esse protagonismo. Em julho de 1975, Vasco Gonçalves participa na afirmação pública da unidade do MFA, representa Portugal na independência de Cabo Verde, intervém na apresentação do Documento-Guia da Aliança Povo/MFA, enfrenta o agravamento da oposição política — simbolizada pela manifestação do PS de 15 de julho — e, em paralelo, torna-se o centro de uma expressiva campanha de apoio, sintetizada no cartaz Povo-Vasco-MFA e no slogan "Força, força, companheiro Vasco".

Ao associar a publicação da obra de António Amaral à divulgação da seleção documental apresentada e à revisitação da cronologia de julho de 1975, o Centro de Documentação 25 de Abril convida investigadores, estudantes e público em geral a regressar às fontes e a refletir criticamente sobre uma personalidade que continua, meio século depois, a suscitar debate. Porque é precisamente na preservação e na leitura dos documentos que reside uma das principais missões dos arquivos: contribuir para uma compreensão mais informada, plural e rigorosa da nossa história contemporânea.